Por Victor Celestrin, Head Coach da Ever Running
Sete meses. Foi esse o tempo entre a inscrição e o momento em que cruzei a linha de chegada da minha primeira maratona. Foram 42,195 quilômetros percorridos, mas a verdade é que a maior distância não foi medida em quilômetros. Ela foi construída diariamente, através da disciplina, da constância e da decisão de não desistir. Quando fiz minha inscrição, no início de janeiro, comecei uma contagem regressiva que mudaria completamente minha rotina. Eu sabia que seria um grande desafio, mas também entendia que a preparação dificilmente seria perfeita. E não foi.
Quando a rotina exige adaptações:
Como profissional de Educação Física, meus dias começam cedo e terminam tarde. Entre aulas, avaliações e atendimentos, encontrar tempo para realizar grandes volumes de treino durante a semana era praticamente impossível. Enquanto muitos planejamentos para maratona chegam a 60 ou até 70 quilômetros semanais, precisei adaptar completamente minha preparação. Ao invés de buscar volume a qualquer custo, escolhi priorizar aquilo que realmente poderia executar: treinos de qualidade, recuperação adequada e consistência.
Essa foi uma das maiores lições que a maratona me ensinou. O melhor planejamento não é o mais bonito no papel. É aquele que consegue ser colocado em prática de forma consistente, respeitando a realidade de cada pessoa. Nem todos podem treinar como atletas profissionais. Mas todos podem evoluir quando existe organização, disciplina e inteligência.
A disciplina faz o trabalho quando a motivação desaparece:
Existiram manhãs frias. Dias de chuva. Sono. Preguiça. Momentos em que ficar na cama parecia uma decisão muito mais agradável do que sair para correr. Mas compromisso é diferente de motivação. A motivação oscila. A disciplina permanece. Durante toda a preparação, houve uma regra que nunca foi quebrada: os longões sempre foram cumpridos. Foi justamente essa constância, e não a perfeição, que construiu a confiança necessária para chegar ao grande dia.
Prevenir lesões também faz parte do treinamento:
Um dos maiores receios de quem se prepara para uma maratona é sofrer uma lesão. Felizmente, durante todo o processo, tive apenas pequenos desconfortos musculares, algo esperado diante da carga de treinamento. Isso reforça uma verdade importante: um bom planejamento não serve apenas para melhorar o desempenho. Ele também reduz significativamente o risco de lesões. Treinar mais nem sempre significa treinar melhor. Controlar a carga, respeitar os períodos de recuperação e entender os sinais do corpo fazem parte do treinamento tanto quanto os quilômetros percorridos.
Nem sempre chegamos à largada como imaginamos:
Na última semana antes da prova, precisei iniciar um tratamento com antibiótico. Não era o cenário ideal. A resistência não era a mesma. Mas havia uma decisão tomada muito antes daquele momento. Eu iria largar. Durante os quilômetros finais, precisei mudar completamente a estratégia. Alternava corrida e caminhada para continuar avançando. O corpo pedia para parar. A mente tentava negociar. Mas existia algo maior do que qualquer desconforto. A vontade de cruzar a linha de chegada.
Ninguém completa uma maratona sozinho:
Existe uma imagem muito comum da corrida como um esporte individual. Mas quem já viveu uma maratona sabe que isso está longe de ser verdade. Ao longo dessa jornada, fui sustentado por muitas pessoas. Meus amigos estiveram presentes incentivando durante toda a preparação. Meus alunos acompanharam cada etapa do processo, perguntando sobre os treinos e torcendo para que tudo desse certo. Toda a equipe da Ever Running esteve ao meu lado oferecendo suporte técnico durante esses meses. Minha nutricionista esteve presente desde o início da preparação e, mesmo durante sua lua de mel, fez questão de enviar uma mensagem antes da largada. E minha família…
Foi ela quem me deu forças quando eu já não tinha mais nenhuma. Ver cada um deles ao longo do percurso, ouvindo meu nome sendo chamado, foi uma das maiores emoções que já vivi. A medalha leva o meu nome. Mas ela pertence a todos que fizeram parte dessa caminhada.
A maior conquista nunca foi o tempo
Quando finalmente cruzei a linha de chegada, não pensei no relógio. Não pensei no pace. Não pensei no tempo final. Apenas agradeci. Porque naquele instante eu compreendi que a maior vitória nunca esteve nos números. Ela estava em tudo aquilo que aconteceu antes da prova. Nas madrugadas. Nas renúncias. Nos treinos realizados mesmo sem vontade. Nas adaptações. Na disciplina. Na decisão diária de continuar. Cruzar a linha de chegada significou muito mais do que completar 42,195 quilômetros. Representou meses de aprendizado e a certeza de que eu havia entregue absolutamente tudo o que tinha.
Mais do que uma medalha, uma transformação
Estima-se que apenas cerca de 1% da população mundial complete uma maratona ao longo da vida. Esse número impressiona. Mas o que realmente torna uma maratona especial não é fazer parte dessa estatística. É descobrir do que você é capaz quando decide não desistir. A maratona ensina que cada corredor possui uma história. Alguns correm pela saúde. Outros pela superação. Alguns realizam um sonho. Outros homenageiam alguém. Não existe um motivo maior do que outro. Existe apenas o seu motivo. E talvez seja exatamente isso que faz desse esporte algo tão transformador. Hoje, com muito orgulho, posso dizer: Eu sou maratonista.
E, mais do que isso, posso afirmar que qualquer pessoa, com orientação adequada, planejamento inteligente e consistência, pode construir sua própria história na corrida. Na Ever Running, acreditamos que grandes conquistas não acontecem por acaso. Elas são resultado de um processo. E toda grande jornada começa com um primeiro passo.